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Fernando Fantin Vono
Dar nome aos bois
Escrito por Fernando Fantin
__________A expressão “Dar nome aos bois”,usada corriqueiramente, quando pronunciada, é de fácil entendimento, sendo que não é preciso interromper o fluxo da conversa para remontar a sua origem, ou significado. A curiosidade, entretanto, me impeliu a procurar o significado na Wikipédia, e eis que a frase não é um privilégio do Brasil ou da língua portuguesa, possui variações no inglês, no francês, e até no grego do século I d.C. O que nos leva a uma observação da importância de revelar as coisas, descobri-las, desvenda-las, nomeá-las. Denys Cuche, em um texto sobre a noção da palavra cultura nas ciências sociais, coloca “Nomear é ao mesmo tempo colocar o problema e, de certa maneira, já resolve-lo”.
 
Entretanto, não estamos aqui para falar de rés, de pecuárias, mesmo que outro nome para esse texto que aqui se segue, pudesse ser “Deixando de rodeios”, o leitor irá entender o por quê.
 
Falamos em uma necessidade de se nomear, por causa de uma constatação visível sobre a consciência das pessoas manifestada em seus discursos, nas falas do dia-a-dia. As muitas discussões, as frases que são reproduzidas, os assuntos escolhidos nas relações sociais diversas, apesar da nossa liberdade de expressão, e sobretudo de pensamento, não são tão aleatórias, seguem um padrão, que muitas vezes não é definido pelos autores do discurso.
 
Podemos perceber isso facilmente, ao exemplo do recente caso da tragédia dos homicídios na escola do Rio de Janeiro, em que “todo o mundo” praticamente, conversou sobre o assunto com algum conhecido. Foi um acontecimento bombástico, uma tragédia, poderia-se argumentar, mas não se pode negar, foi assunto geral.
 
Outro ponto importante, é a nossa autoconsciência. O que achamos da gente mesmo, o modo como nos definimos, o que acreditamos, como entendemos o mundo, nossas relações de superioridade e inferioridade, o que pensamos das instituições, a classe social a que pertencemos são aspectos que muitas vezes não são discutidos, mas em nossas conversas, sobre os mais variados assuntos (futebol por exemplo), são elementos que compõe, explicitamente ou nas entrelinhas, a nossa fala.
 
Ao se reparar nos discursos das pessoas em geral, poder-se-á ver que existem muitas distorções no modo como as pessoas percebem o mundo e a sua própria condição, distorções no modo como se vêem colocadas nas relações de poder, o que leva a posicionamentos diferentes do que a sua condição verdadeiramente percebida deveria gerar, em discussões. Tal aspecto, seria conhecido como alienação, nos termos Marxistas, produto do trabalho alienado. Mas não vamos nos valer desse conceito, muito complicado para um texto que pretende ser curto. Até mesmo porque da estranheza desse fenômeno, é que se manifestam as mais variadas formas de sobreviver e relacionar que os grupos humanos encontram. E também as consciências, por mais alienadas que possam vir a ser, não são totalmente submissas e passivas.
 
Mas se esse escrito, não é uma crítica, então o que pretende? Por que falar mal de algo e não desferir o golpe final? Simplesmente porque não se pode querer reformar a sociedade, mudar paradigmas, revolucionar algo, através de um simples escrito de internet, que terá apenas uma pequena quantia de leitores, e mesmo que fossem muitos. Não, esse texto se pretende apenas nomear algo que é frequentemente esquecido, algo que a grande mídia não menciona, algo que nos é diário mas passa desapercebido, algo que determina o modo como comemos, moramos, trabalhamos e nos vestimos, um algo que é inimigo da maioria da população, e utiliza o trabalho dela, e até seu desemprego, para se procriar e ficar maior, um algo que é abstrato mas está por toda parte.
 
Estamos a falar do capitalismo (em negrito, itálico, sublinhado e maiúsculo). É ele com uma minoria de sacerdotes em seu Vaticano particular, Davos, que está por toda a parte, ele que determina muitas coisas, e é ele o pai de todas as contradições. Sobretudo, e apesar de seu poder, ele não é imortal. O capitalismos existe, e sua riqueza se multiplica somente através da exploração do trabalho. A destruição ambiental e a pobreza extrema são consequências deste, pois a lógica de funcionamento desse sistema, se assemelha à de um câncer. É ele o nosso inimigo escondido, a quem queremos desvendar. Que somente isso seja nossa proposição, pois só assim evitaremos que nos enganem, nós e nossos companheiros.

Deixo aqui uma citação de Saramago em Todos os Nomes para terminar (...)“de facto não há nada que mais canse uma pessoa que ter de lutar, não com o seu próprio espírito, mas com uma abstração”.
 
 

Por Fernando Fantin Vono