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Fernando Fantin Vono
Homofobia, O Medo do Orgasmo do Outro: uma visão antropológica - Parte 1 de 2
Escrito por Fernando Fantin

Do que dizer do ser humano, uma coisa sempre há de ser lembrada, é um bicho cultural, que possui consciência de si. A consciência que tem de si só existe na medida em que se relaciona com o outro, dessa alteridade que vai se construindo ser. Ele não é, vai se tornando, e nunca será (acabado). E sua culturalidade, faz com que nada nele seja natural. Um estado de natureza (de inocência) nunca existiu porque a cultura se deu desde que se iniciou a hominização como processo, já nos australopitecos.

Essas constatações (polêmicas que sejam) são, atualmente, princípios de pressuposição necessários para validação qualquer discurso racional acerca do humano. No entanto, não é o que acontece na nossa democracia, em que presenciamos nos aquecidos debates em torno da causa gay, precisamente nas questões do casamento e da homofobia, um discurso embasado na vontade de Deus e no que é natural. Que houvesse uma “vontade de Deus”, que o humano pudesse ser “natural”, ainda assim, nos indagaríamos, o que esses não-gays tem que ver com assuntos que não dizem respeito em nada a eles? Que importância haverá para eles se os gays forem para o inferno ou se comportarem-se como aberrações*?

O leitor desprevenido e apressado pararia a leitura por aqui, acharia este um argumento convincente e responderia que eles (os homofóbicos) não têm nada que ver com esses assuntos que não lhes dizem respeito, que cuidem da vida deles. E isso é uma verdade tão óbvia. Mas esse leitor otimista ficaria sem saber a resposta que quem já viveu o preconceito e a repressão nos daria.

Importa e importa muito, o modo como o outro vive e, sobretudo, o que faz com o sexo dele. Toda a sociedade possui uma organização, ou ao menos elementos, voltada para o controle do sexo alheio, principalmente do feminino. A mulher possui profundidade, seu sexo não é exposto como o masculino, então a mulher é um enigma, não se sabe o que vai encontrar. E a mulher também oferece o risco da castração, com seu conjunto vagina-ânus, assemelhando uma vagina denteado, o homem pode perder sua masculinidade ao perder-se da mulher. Também havendo a castração metafórica, do homem que disvirtua-se das “questões masculinas” para viver a ordem da mulher, que é o amor.**

CONTINUA...

 

Notas:

*O termo aberrações é usado pelos homofóbicos para designar um comportamento que difere do “Normal”. Obviamente não compartilhamos essa mesma visão distorcida da realidade, que essa sim é aberrante.
** Idéias retiradas do Livro “Da horda ao estado: Psicanálise do vínculo social” do Eugene Enriquez.


Por Fernando Fantin Vono Originalmente, na íntegra em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/05/homofobia-o-medo-do-orgasmo-do-outro.html