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Fernando Fantin Vono
Os gramático reaça sai dus armário
Escrito por Fernando Fantin
O retrato que mais apropriadamente ilustraria os assuntos de pais e filhos sobre as matérias da escola, ponha-se o leitor a imaginar a cena, é o filho perguntando a um dos pais qual é a conjugação do verbo admoestar no pretérito mais que perfeito para o pronome vós. O pai solicitado, nesse instante fica irritado com a própria ignorância e, ao invés de chamar a si próprio, chama o filho de burro, e conta que na época dele de escola, ele tinha decorado a conjugação de todos os verbos, sabia todas as tabuadas e sabia de cabeça o nome das capitanias hereditárias. Diz que as crianças de hoje são vagabundas e preguiçosas e que o filho está indo à escola para ficar mais burro. Quem nunca presenciou uma cena parecida com esta? 
 
Uma discussão relativamente recente vem ganhando espaço na mídia e entre as pessoas em geral, principalmente depois da distribuição do livro “Por uma vida melhor” da professora Heloísa Ramos, pelo MEC. O livro aborda a existência de variedades linguísticas que diferem da norma culta, e que não são erradas, mas inconvenientes em determinadas ocasiões.
 
A língua não é um fenômeno pronto, rígido, é mutável e inacabada e, sobretudo, relativo. Sua relatividade depende de fatores espaciais (no Pará não se fala igual ao Rio), históricos (o português de 1500 é quase indecifrável para nós do século XXI), culturais e até econômicos. 
 
Porém, pouca gente reflete sobre isso e, por esse motivo, muitas pessoas estão horrorizadas com a medida do MEC. Pelo menos é o que se observa na maioria das opiniões que andam emitindo. Defende-se que se a escola não ensinar o português correto ninguém o fará, dizem que se não ensinarem o português correto as crianças não terão gosto pela literatura clássica e até que, a opinião mais absurda foi impressa pela revista Veja, que a “boa gramática é um mecanismo dos alunos para ascensão social e que a sociolingüística é uma doutrinação de antigas ideologias comunistas, como as medidas do Stalin” (mais ou menos nessas palavras).
 
Todos esse argumentos são reproduzidos mas, se investigados à fundo, não passam de mentiras, ou, no mínimo, hipocrisias. Primeiramente o livro propõe que a escola ensine a norma culta, ninguém está retirando dela esta função, apenas se está incorporando a variedade linguística para ilustrar que existem outras formas de se comunicar que não o português padrão. Em segundo lugar, temos que em décadas do ensino da gramática rígida e decorada, a maioria dos adultos formados não pegou gosto por literatura alguma, quanto mais pela literatura clássica, e muitos desses adultos tem medo de falar em público com receio de serem ridicularizados por não dominarem a norma culta. Com anos de gramática decoreba, pouquíssimas pessoas conseguiram decorar alguma coisa e ainda menos pessoas sabem para que serve o que decoraram. Em terceiro lugar a “boa gramática” de que trata a revista veja, não é nem nunca foi mecanismo de ascensão social, mas justamente o oposto, um eficiente mecanismo de exclusão, na medida em que, quem não a domina, é ridicularizado, é motivo de piada, não tem acesso a empregos formais e, até mesmo, esse é um fator determinante de êxodo escolar. Quanto à questão de serem medidas comunistas, prefiro não ter o trabalho de comentar.
 
 
Mas se esses argumentos são mentiras,caberia perguntar a quem essas mentiras poderiam  interessar. Essa é a questão fundamental para adentrarmos na essência da discussão. A polêmica que o livro gerou se dá justamente porque ele desvenda algo que era quase imperceptível na nossa sociedade, o “preconceito linguístico", que opera da seguinte forma, por se tratar de uma língua de domínio das elites que tiveram a possibilidade de permanecerem na escola por mais tempo, é um mecanismo para desqualificar o “outro” que não domina essa norma padrão, esse outro é geralmente o pobre, o preto, a prostituta, a empregada doméstica, o nordestino, o imigrante, o baiano, o cearense, o pedreiro, o metalúrgico. E essa desqualificação do outro acontece em forma de piadas, na roda de conversa das elites, nas festas e nas confraternizações das gentes ricas.
 
O empenho na luta contra a incorporação da variedade linguística se dá devido ao medo de que se reconheça os mecanismo pelos quais uma elite se mantém como tal, é uma luta pela manutenção de uma ordem que somente favorece ao patrão que paga R$ 500,00 à empregada doméstica para trabalhar 40hs por semana e que, para justificar tal exploração a um salário tão baixo, desqualifica e rebaixa a empregada devido ao português errado que ela fala.
 
Ao incorporar a variedade linguística na proposta curricular, as elites não poderão fazer mais chacota dos nordestinos, corintianos, do Lula, porque aí, tais piadas vão revelar quem é que são os verdadeiros ignorantes.
 
 

Por Fernando Fantin Vono