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Fernando Fantin Vono
Crítica do Empreendedorismo
Escrito por Fernando Fantin
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As palavras, assim como os humanos, também possuem história. Elas evoluem, contraem-se, se fundem, migram e até mesmo, chegam a mudar completamente de sentido. E como são extremamente caprichosas, estão muito atentas à moda. Assim, em cada época distinta, uma palavra veste melhor que outra, e se você usar uma palavra fora de moda, com certeza será ridicularizado. Um simples exemplo recente é o caso da antiga palavra “natureza”, que perdeu lugar para “biodiversidade”, uma palavra bem mais feia, porém, mais atual.

O que preocupa, no entanto, não é essa mutabilidade da língua, mas sim o fato de que algumas palavras acabam ficando cada vez mais famosas, vendo-se escritas em mais textos, sendo faladas por mais bocas e fixando-se no imaginário das pessoas de uma maneira dificilmente reversível, e de um modo que passem a estruturar o pensamento humano em geral e, uma vez fixadas nesses lugares, dificilmente serão questionadas. Tal não seria problema se as palavras não fossem abstratas, ao contrário do modo como acabamos de desenhá-las, com sentimentos próprios. Mas as palavras são coisas criadas, escolhidas e difundidas por humanos, principalmente por aqueles que possuem os veículos necessários para fazê-lo. Dessa forma, em alguns casos, a moda que as palavras vestem não é algo casual, mas sim uma escolha arbitrária, feita por quem possui direto interesse no sentido que as palavras e os pensamentos humanos tomarão.

Vejamos o caso dessa palavrinha muito comum de ser ouvida hoje em dia, “empreendedorismo”, perceba o entusiasmo e a vitalidade que a palavra traz. O “empreendedor” é visto como aquele que não tem medo de se arriscar e sabe investir para multiplicar o seu lucro, é trabalhador (mesmo que nunca tenha colocado as mãos na massa), é competente e dedicado à sua empresa, sabe gastar com publicidade, sabe poupar, sabe gerenciar seu negócio, sabe dividir as funções, sabe exigir o máximo de seus empregados (que quer que isso queira dizer) e, muitas vezes começou do zero, ao menos pelo que dizem.

Quando se fala em um empreendedor, remete-se a um quase aventureiro, que se arrisca (claro está, no limite em que o risco não é arriscado), aparece frequentemente descrito como inovador e criativo. Assim, essa palavreta, tão em voga, exerce uma espécie de fascínio, principalmente nas gentes que sonham em acumular alguns bens mas passam por apertos na hora de comprar os bens básicos.

Porém a natureza da cousa, perdão pois aqui não coube biodiversidade, merece ser desnaturalizada. Na realidade, o empreendedor não tem nada de aventureiro, criativo ou artista dos negócios, e sim, é um oportunista pragmático. Para se pensar como empreendedor, tudo deve ser de ordem prática e facilmente resolvível, dinheiro, contas, ações, propaganda, mercadoria e, sobretudo, pessoas, tudo são variáveis da única equação que entendem, onde X é o lucro. Assim, tudo que norteia a vida do empreendedor é o dinheiro, e gozo deste. Em outros tempos, tal mentalidade seria vista como medíocre, porém, com a palavra empreendedor, querem transformar este em ideal de homem. Sem falar que a palavra máscara a verdade das relações empresariais. Não é que o empresário explora seus empregados, ele otimiza a mão de obra e gera empregos, tudo muito bonito. A formiga de hoje não se contenta em matar a cigarra de fome, mas rouba o violão da defunta de diz que cantora era ela.

 

Entretanto, não temos suficiente força para abolir o uso dessa palavra, além do mais, “burguês” seria muito antiquado, apesar de caber. Como já foi aqui dito, as palavras mudam constantemente de sentido, contentemo-nos em “empreender” uma luta para mudar o que palavra “empreendedor” remete em nosso imaginário, por uma outra significação, um tanto mais verdadeira.

 

Originalmente em:
http://resistenciacotidiana.blogspot.com/2011/07/critica-do-empreendedorismo.html