⌠ 153 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Eron K. Nascimento
O dia em que o jornal virou tribunal
Escrito por Eron Nascimento


Os desdobramentos políticos dos últimos anos, onde boa parte da população foi tirada da “linha da pobreza” tendo mais acesso a bens de consumo, ao invés de serem inclusas por uma melhora significativa nos serviços públicos básicos, como saúde, moradia, educação e transporte, levaram a um desgaste que já estava se estendendo desde a abertura democrática, pois os setores representativos não atendem às demandas populares.

Desde o início de Junho de 2013 as manifestações vieram tomando proporções maiores, com destaque para tática Black Bloc que possuía pouca evidência no país. Esta tática anarquista é frequentemente taxada de grupo pela maioria dos veículos de imprensa, facilitando assim a criminalização por parte de aparatos do estado que enquadra os manifestantes por “formação de quadrilha”. A tática caracteriza-se pela espontaneidade de quem a adere, usando trajes e o rosto cobertos de preto, tendo a ação direta e o ataque a símbolos que representam o capitalismo como forma de protesto.

Recentemente em um protesto no Rio de Janeiro contra o aumento da passagens, um cinegrafista da Rede Bandeirantes foi alvo de um rojão e acabou falecendo. A fatalidade nos expõe o lado mais cruel da própria imprensa, que diante da morte de um dos seus trabalhadores, usa o fato para tentar criminalizar os protestos, agindo como um tribunal, apresentando provas, formando acusações, buscando atrair a opinião pública para sentenciar os que julgam criminosos. Os grandes meios omitem a morte de dezenas de manifestantes, resultado da repressão que se sucede desde o ano passado, mas dão enfoque a um caso que nem fora sentenciado pela justiça ainda, deixando claro qual desfecho que deseja.

chacina na mare(Cinegrafista sendo atingido por artefato e homem morto após protesto que resultou em uma chacina da polícia no complexo da Maré).

São muitos os aparatos usados para tentar suprimir o que está vindo das ruas, e o governismo tende a defender a Copa do Mundo que está chegando, o Ministério da Defesa já conta com documentos que tratam movimentos sociais como “forças oponentes”. Já um grande portal de notícias se encarregou de dizer que “estagiário de advogado diz que ativista afirmou que homem que acendeu o rojão era ligado ao deputado Marcelo Freixo.”, porém a notícia que mais parece um malabarismo com palavras foi desmentida pelo deputado.

Em ano de Copa, povo nas ruas, greve nas universidades federais e trabalhadores em busca de seus direitos, nos mostrarão para quais interesses o Estado serve, e que o legado populista possa estar se esgotando. A velha democracia representativa está falindo, assim como o sistema econômico que a conduz, em diversas partes do mundo populares se levantam, querendo definir os rumos de sua própria história.