⌠ 32 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Cláudia Banegas
Borboleta em Fragmentos
Escrito por Cláudia Banegas

Sou mulher borboleta em fragmentos.
Decidida, parto brusca em voo incerto.
Minhas asas enfrentam a ira dos ventos.

Não sigo a esmo roteiros alheios.
Minha vida sem enredo é um enigma.
Preciso libertar-me dos meus estigmas.

Sigo sonhando, voando alto na imaginação.

Uma réstia de sol me guia, divina inspiração.

⌠ 32 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Roberta
As gélidas
Escrito por Roberta


Então, essa semana foi assim:

pensando em como desabafar todos os poréns que você deixou em mim em letras.

Mil coisas me ocorreram,

mas o papel me fugia e aquele pensamento magoado ficava na intenção

e caia no esquecimento.

E o martírio da saudade daquela sensação,

na lembrança do que me causou,

incomodava…

Até que escutei seu pulsar novamente,

e outra vez as borboletinhas

resolveram me visitar como de costume.

Não pelo causar daquele significado antigo,

mas por genuíno costume.

Me acostumei a te querer e não ter,

que quando não tinha e muito menos te queria,

as gélidas me reapareceram.

Só para me lembrarem que já não mais te sentia

e de repente,

assim como finalmente,

me vi como uma curada.

Curada de uma dor que tanto doía 

e esmagava toda a minha essência.

Foi-se o que antes foi tanto. 

E se sobrou algo,

só pode ser o saudosismo de uma época que significou,

e já não faz sentido mais.

 

R.R.

 

⌠ 38 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Júnior Dihl
Canto...
Escrito por Júnior Dihl


Canto tantos cantos

Cantos diversos, canto

Em canto, encanto

Canto em canto

Canto com canto

Canto sem canto

Canto por canto

Canto aos quatro cantos.



⌠ 27 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Fernando Feio
Cidão e o Encosto
Escrito por Nego Rockhard


Nunca fui um cara supersticioso. Pra ser bem sincero, eu nem acredito em deus, em santos, em fantasmas, em nenhuma merda dessas. Não acredito que quando eu morrer vou pra algum lugar onde o chão é de ouro e tem sete gostosas loucas pra dar pra mim. Muito menos que eu vá pra um lugar feito de fogo, onde um filho da puta sádico vai ficar enfiando um garfo no meu rabo. Não, definitivamente nunca acreditei em nenhuma dessas merdas. E mesmo assim aqui estou eu, ajoelhado dentro de uma igreja, conversando com o padre sobre o suposto encosto que têm transformado minha vida em uma merda nas últimas semanas.

- Você precisa ir ver o Cidão. O padre falou.
- Cidão? Quem é esse cara?
- É um xamã que mora pra pro lado de Taboão, em casos como o seu, ele é o único que pode ajudar.
- Puta merda, você não pode fazer alguma coisa? Sei lá, rezar um pai nosso?
- Meu filho, você tem uma entidade real te fazendo mal, se Deus colocou ela aí, só a religião pagã pode tirar.
- Fala a verdade, você não sabe de merda nenhuma não é?
 
Padre filho da puta.
 
Os últimos dias tem sido uma merda. Não consigo dormir e, quando durmo, tenho pesadelos. Comecei a sentir dor nos dentes, nas pernas, na cabeça. Cansei de tomar comprimidos que não fazem efeito. Já tinha aceitado viver assim, quando sonhei que tinha um encosto fodendo com a minha vida, por isso iniciei minha busca pela ajuda espiritual. E tudo isso tem sido uma merda.

***

- É o excesso de trabalho, amor.

Estávamos deitados na cama, eu e Luísa, depois de uma trepada. Ela está nua, com os seus seios pequenos apoiados no meu corpo, me olhando com curiosidade, como se procurasse alguma doença. Com esses olhos castanhos enormes.

- Trabalhei nesse ramo minha vida inteira e nunca fiquei tão ruim assim.
 - Ixi, já pensou se você começa a ficar broxa também?
 - Cala a boca.

Assumo que esse pensamento me assombrou.

- Minha amiga conhece um sensitivo muito bom, que tirou o encosto do marido dela quando ele tava ficando broxa. Agora ele, o marido, não falha mais na cama.
- O que foi? Eu não te satisfaço mais caralho?"
- Não é isso, mas é bom prevenir né. O nome do sensitivo era... Hmm.. Cidão!
- Que merda de nome.

***

No dia seguinte visitei Pai Bruno, um pai de santo que é famoso na região central. Ele estava em uma dessas casinhas no meio do lixo que tem no bairro da Liberdade. O lugar era mal iluminado, com pequenas lâmpadas acesas por gato ligado diretamente nos postes da rua. A tinta vermelha da parede já descascava quase que por completo. Fui guiado por um garoto até uma sala pequena, onde estava o pai de santo, um negro gordo, que vestia uma bata de ceda meio rosada, uns colares e uma parada na cabeça que não sei o nome. A cadeira em que ele estava sentado tinha um aspecto tão frágil que parecia que ia quebrar. A mesa também. Ambos os móveis esse filho da puta deve ter encontrado no lixo.

- Pode se sentar, menino. Ele disse.
- Prefiro ficar em pé. Respondi, com receio de quebrar a cadeira caso eu sentasse nela.
- Bom, se o menino quer ficar em pé isso não é problema meu. Que que tu tem?
- Encosto.
 
Ao ouvir minha resposta, o Pai Bruno fez uma cara de desconfiado. Levantou e saiu da sala. Notei que aquele lugar tinha um cheiro doce, enjoativo. Fiquei sozinho por alguns minutos, quando ele voltou trazendo uma vela branca e grossa.
 
- Se a vela queimar preta, é porque o menino tá com bicho ruim. Se queimar branca é porque tá com bicho bom.
 
E acendeu a vela.
 
Não entendi de primeira o que ele queria dizer. Ele agora cantava em um idioma que eu não sabia se existia mesmo ou se ele estava inventado na hora. O fogo da vela parecia queimar mais forte, então, aos poucos, a vela começou a derreter, a cera derretia, escorregava e se acumulava na base, ficando cinza, depois preta.
 
Aí eu entendi.
 
Ele ficou nessa cantoria um bom tempo, a vela chegou na metade. A cera derretida tava mais escura que asfalto.
 
- Menino ta com bicho ruim, trabalho forte.
- E o que eu faço?"
- Menino precisa ir ver Pai Cidão.
- Puta que pariu!
 
Ia meter um chute na mesa, mas uma dor súbita na perna me travou. Caralho. É melhor eu ir ver o Cidão.

***

Não costumo andar com meu equipamento pra fins pessoais. Mas dessa vez não tinha como. Eu estava indo pro meio do nada. Angustiado. Tava com uma sensação de merda. Não que eu pretendesse usá-lo, mas assim eu me sentia mais seguro.

Na porta do Cidão.
 
O Cidão trabalhava em uma espécie de cabana, uma construção feita de pedaços de pau, folhas, galhos, panos velhos. Tinham umas pessoas deitadas em colchões na frente. Uma molecada, uns velhos. Eles pareciam chapados. Fiquei ali parado um tempo fumando um cigarro. Uma garota branca, loira, jovem, descalça e seminua saiu da cabana, falou pra mim que o Cidão já me esperava. Ela tinha um olhar vazio da porra. "Que merda é essa" pensei.
 
Entrei na cabana, o Cidão era um velho, cabelo branco, longo, baixinho, devia ter 1,60m. Ele estava mexendo em uns frascos. Mandou eu sentar. Sentei. Com o cu na mão. Ele sentou de frente pra mim, me olhava fixamente, olhos verdes. Um gato branco saiu do meio do mato e pulou no colo dele.  Cidão levantou, acendeu incensos, borrifou o conteúdo de uns frascos em mim. Começou a emitir uns sons em tom musical e de reza. 
 
Senti uma tontura. A cabana começou a girar. "Caralho, que merda que esse filho da puta jogou em mim?". Cidão dançava pela cabana, enquanto o gato estava em cima da cadeira me encarando. Tentei me levantar mas não conseguia. Senti um vento no rosto. Puxando minha pele. Era a entidade saindo? O gato começou a se contorcer, a rosnar. Puta que pariu. O Cidão não calava a boca. O gato deitou de costas todo torto. O velho parou, com os olhos revirados e começou a fazer sons fantasmagóricos. A cabana começou a tremer. Os frascos caiam da prateleira. O gato começou a se retorcer em movimentos violentos, me segurei na cadeira. "Pra que que eu vim me meter nessa porra?". O bichano torceu o pescoço bruscamente, olhou pra mim e, aos poucos, começou a suspender na minha frente, o bicho estava flutuando!
 
- Caralho! Foda-se essa merda!
 
Saquei a Taurus e dei três tiros no felino filho da puta. - Foda-se esse encosto do caralho!
 
A cabana começou a desmoronar.
O Cidão ficou desesperado porque eu chumbei o gato, voou pra cima de mim, meti um balaço no peito dele.

- Foda-se você, Cidão! Foda-se essa porra toda!
 
Ia sair da cabana, mas algumas das pessoas que estavam do lado de fora entraram correndo, vindo pra cima de mim. Atirei em todo mundo. - Vão se foder, loucos do caralho!
 
Consegui sair da cabana. O resto do povo saiu correndo. A moradia do Cidão virou entulho. Estava caminhando pro meu carro. Parei, gritei o mais alto que pude e atirei pro céu até não ter mais balas no cartucho.
 
- TÁ OUVINDO?! FANTASMA FILHO DA PUTA?! APARECE DE NOVO QUE EU METO UMA BALA NO MEIO DA SUA CARA!
 
Entrei no carro, respirei fundo e saí dali, era fim de tarde, a Francisco Morato estava sem trânsito. Acendi um cigarro e coloquei Dylan no rádio. Voltei pra casa aliviado.

⌠ 36 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Kainan Ismar
Pacote de Plástico
Escrito por Kainan Ismar

Já era onze horas da noite.
Ele ainda não estava em casa, esperava. Esperava no frio, no terminal, seu ônibus.
Havia naquele dia um número maior de pessoas do que nos outros, algo estranho no ar.
Ele olhava as pessoas e não as enxergava.
Pensava na frase: "Eu vejo a vida que está em ti, você vê a minha em mim?"
O que aquilo queria dizer? Ele estava em outro mundo.
De um instante a outro percebeu-se fixamente encarando um pacote de plástico.
Já não estava mais no terminal, estava no espaço entre ele e o pacote.
Nada mais havia ali. O ônibus não viria.
Percebeu também que ao fitar o plástico daquela maneira, ele ignorava.
O fazia sentir-se bem.
Não havia opressão a sua cor, a sua raça, a sua religião, a sua sexualidade, ao seu eu.
Era tão somente ele e o plástico.
Pacote do que aquilo era? Pertenceu a quem antes de ser jogado no chão? O que ele guardava?
Não interessava.
O plástico transformou-se em uma metáfora, um refúgio.
Tentou desviar o olhar, mas viu-se incapaz. Ainda não era o momento de sair.
Notou, involuntariamente, que pessoas chegavam e o rodeavam, esperavam com ele o ônibus.
Pra onde o ônibus o levaria? Por quê? O plástico era a salvação.
Sentiu um vento frio cortando o pouco calor de todos, o dele, em compensação ao transe, não fora abalado. No lugar onde ele estava não havia clima.
 -Eu vejo a vida que está em ti! Você vê a minha em mim?
Isso lhe dava segurança. Ninguém nunca perguntaria isso a outra pessoa, não nesse mundo, mas para ele aquilo deveria tornar-se necessário.
A frase protegia o ofendido, o oprimido. E afastava o ofensor, o opressor.
A frase não permitia a ofensa nem a opressão. Era pura.
De repente, seu corpo moveu-se para frente. Os olhos fixos, o corpo a frente.
Duas ou três pessoas passaram por seus olhos, conturbando a meditação.
Conversavam alto e falavam demais. Quem eram? O que representavam naquele momento de paz?
PAZ.
Não havia mais ninguém novamente.
A paz do plástico o alimentava, o supria, de uma carência antiga.
 Uma voz lhe disse irritada: 
- Pare de me olhar.
Assustado olhou em volta. Alguém descobrira seu segredo, seu plástico.
Não havia ninguém, estava só.
Quanto tempo esteve ali?
Fechou os olhos e bocejou o maior dos bocejos, estava cansado, precisava de um banho e sua cama quentinha. Precisava fugir para outro mundo, precisava.
Abriu os olhos.
Todos estavam a sua volta novamente. O ônibus, longe, vinha em sua direção. O plástico? Era uma embalagem de pipoca doce. 
Uma embalagem de pipoca doce.
O plástico havia sumido. Seu refúgio fora embora, era tempo.
Entrou no ônibus, sentou-se ao lado de uma janela e procurou na embalagem o plástico. Em vão. Fechou os olhos e cochilou. Acordou no ponto onde devia descer. Desceu, caminhou para sua casa, entrou, sentou-se no sofá. 
Observou todos em sua casa e questionou-se:
-Onde estive?
 
⌠ 33 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Roberta
Ainda guardo lembranças
Escrito por Roberta

Ainda guardo o disco rasgado, a carta amassada, o sorriso trincado
Ainda tenho a carta rosa, o bilhete á mão e a iniciais gravadas no fundo do caneco
Mas do que me adianta todas essas lembranças
Me importunando para lembrar que não sobrou ninguém
E que ninguém voltará

Me acusam de indiferença por não lembrar, saudar, insistir ou procurar
Mas foi por não ser indiferente que hoje tento não chorar
Na fila do banco, no banco do ônibus, no ônibus lotado,
Na cheia do mar, no canto do quarto, no chuveiro ligado

Me aponto desnecessária. Não há contestações.
Tentei me projetar na parede da sala para te contar
Que não, eu não consigo sozinha, mas você não prestou atenção
O filme estava mais interessante que a minha vida

Três páginas. Lembranças que eu não quero mais
Mas se eu não as tiver como vou lembrar que pessoas passam por nós
E no fim, nos deixam? Talvez seja esta uma das leis naturais da vida...
E como vou lembrar de sentir saudades do outrora e retroceder no tempo?

A indiferença que me veste
Foi costurada com a cegueira calculada
Dos que me presenteiam com sorrisos e me ferem com adeus
Ainda guardo o disco rasgado, a carta amassada, o sorriso trincado
Ainda tenho a carta rosa, o bilhete á mão e a iniciais gravadas no fundo do caneco
E agora, agregadada á coleção de lembranças, tenho a visão
De que tudo é ilusão
Todos se vão

⌠ 34 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Vitor Reis Graciano
Pensando bem...
Escrito por Vitor Graciano


E lá estava ele, atrasado, como de praxe, numa correria já rotineira e a qual já estava habituado. Sentia falta nos dias mais folgados. Pensamento longe e o corpo numa espécie de auto comando em direção ao próximo destino, pensava:

“Hoje meu dia é cheio, afinal, cheguei ao dia mais importante dos últimos anos da minha vida, hoje é o grande momento, se os resultados forem os esperados... nem consigo imaginar direito, será que vale um nobel? Acho que sim, afinal, terei descoberto a cura do câncer. Quantas pessoas vou salvar, quantas vidas deixarão de sofrer com um resultado tão cruel nos dias atuais? Tenho que revisar minha agenda, compromissos, testes, terminar meus relatórios e, ainda hoje, vou divulgar ao mundo minha descoberta.

Fico relembrando meus dias de luta, minhas dificuldades, quanta coisa já passei! Tenho que pensar nos agradecimentos, não posso esquecer de ninguém.”

Foi nesse momento que sentiu um forte esbarrão, abaixou, pegou alguma coisa que havida caído e percebeu que acabara de perder o ônibus da faculdade, acabara de perder uma aula importante e já não valia à pena muita pressa. Sentou-se em um banco ali mesmo, no ponto de ônibus, e imaginou:

“finalmente descobri a cura da...”

E seguiu sonhando acordado, como todos os dias, sempre pela manhã, quando ainda lhe resta um pouco de tempo para isso, quando seus pensamentos ainda não foram ocupados com cálculos e fórmulas, enquanto suas aulas ainda não começaram.

alt

⌠ 21 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Júnior Dihl
Diagnóstico
Escrito por Júnior Dihl


Pode ser Amor...

... Quando o olhar parecer vazio e sem direção...

... Quando o pensamento parecer longe...

... Quando o corpo parecer distante da alma...

... Quando o equilíbrio se perder nos lentos passos...

... Quando as mãos se mostrarem sem paradeiro...

... Quando as palavras parecerem presas e limitadas...

...  Quando as ideias dissociarem-se das ações...

... Quando as vontades estancarem diante às incertezas...

Ou pode ser uma baita gripe.

 

⌠ 31 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Júnior Dihl
As Pessoas Dizem Adeus
Escrito por Júnior Dihl


As pessoas dizem adeus

Dizem sem precisar

Sem pronunciar direito

Mesmo assim insistem.

Este adeus que sai

Não retorna mais

E quando dele precisam

É sempre tarde.

Sem outra oportunidade

Seguem a dizer adeus

Nas horas vagas

Nas horas que lhes convém.

Adeus com hora marcada

Que mais parece um “até logo”

De um breve deslize

De uma boba discussão.

É melhor assim, então

Dizer apenas por dizer

Do que não poder dizer

Um simples adeus.

⌠ 37 avaliações para a publicação abaixo ⌡
Amanda Lindner
(Exige-se selo)
Escrito por Amanda Lindner

        Aquele lugar que me recordo de não lembrar nada, daquele dia no meio (ou no início) de algum mês de qualquer ano que insistes em não dizer-me
 
Meu caro,
 
Cá estou, escrevendo-lhe do lugar que prometera trazer-me.
Cá estou, escrevendo-lhe daquela mesa com vista pro mar, tomando aquele café que prometera apresentar-me... Café com brisa e bruma, lembra-te?
Cá estou, só. Sendo-me.
Descobri que não sou tão avessa aos teus hábitos. Até comprei aquele livro que dissera que mudaria minhas perspectivas e iluminaria um novo ser que só tu vias, e eu deixara de conhecer. Fiz o obsequio de anotar as margens suas citações grandiosas e inexpugnáveis, que me dera ao pé do ouvido esquerdo enquanto escutava aquele tango na vitrola velha que trouxera daquelas bandas de sabe-se lá onde pra comemorar o dia da semana que não acontecera nada.
Pensei em escrever-te assim, do quase nada, por um quase impulso, num quase átimo sobre coisa alguma que outrora era pra nos ser. Talvez pelo fato de perpassar-me algo advindo de algum lugar do inconsciente do peito, ou do cérebro; que nostalgia deveras ser algo a ser preservado, mesmo que esta tenha se originado do nada sobre qualquer coisa que qualquer um esquecera-se de me contar.
Pensei em escrever-te, após tanto tempo depois que o fizera. Conquanto, se atar-te ao que dizem sobre o tempo, talvez não seja tão tardio assim. Aliás, sobre ele e sobre o que dizem dele, talvez pudesse dar-me a graça de suas teorias sobre o passar ou o deixar de passar do mesmo. Dizem que estão encurtados os dias; a outrem, apenas que este se dá lentamente, torturando-lhe a falta do que fazer e do que pensar; ou ainda, que este mesmo tempo passa lento e rápido, consoantemente. Mas talvez não seja, porque tempo deveria ser interpretado como sendo. Ou não. Devo acrescentar que sinto falta de quando me elucidava sobre tudo e sobre nada, e me convergia as suas explicações mirabolantes sobre coisas que nunca viria a ver, conhecer, tocar.
Embora, cá estou. No seu lugar, no lugar que jactanciosamente aclamava teu. Se bem que, sendo tão teu faltam-lhe características tão estóicas, tão singulares que ao primeiro relance, até desorientei-me. Sempre soube pra onde ir quando se tratava de tu, e perturbou-me o faltar de tanto teu. Procurei por onde andava teu desassossego, teu descompasso, teu desacato, teu estoicismo, teu som... Talvez tenha levado junto com o que insistia que fosse meu, que me fosse deixado, que me fosse melancolia. Mas não. Resignara-se a me deixar só.
Enfim, cá estou.
Só.
Sendo-me.
 
Desejo-lhe que se perca, de todo. Para se encontrar, esplendente.

Grata,