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Fernanda Rodrigues Reis
O disfarce da verdade
Escrito por Fernanda Reis


           Embriaguei-me em ato cíclico e sequencial; num copo o rum e no seguinte o amaretto. Fixei-me em estalagem de onde se via apenas as campânulas estendidas no campo, atapetando um caminho imaginário. Não me demorei em deleite quando a nuvem de um incêndio inesperado invadiu os meus olhos e, tomando posse do céu, tratou de avisar a tragédia a qualquer vizinhança. De vestes postas a prumo, neguei-me a acreditar naquela estadia e julguei-a um sonho. Como pudera, atarraquei a mim mesmo, se eu guardava nos bolsos o bilhete daquela viagem e mantinha na boca o sabor do melaço. Pois, assim eu menti. Disse a mim várias vezes e em voz alta que o resquício do líquido em verdade era amargo, o passaporte assegurava assento que não existia, e as manchas roxas de pétalas em livros surrados vinham da lavanda que eu usara para marcar as páginas.

Perdi o discernimento. Já não posso mais dizer qual é a distância entre o azedo e o amargo, e se carregam notas de doce. Os pesos e medidas não estão mais ao meu alcance. Posso ver um registro austero na suavidade e o contrário também não me passa despercebido. Ora, se a verdade se esconde de mim em vingança contra a distorção que fiz outrora, ela é então a maior das fantasias; a mais bela patranha; o sofisma mais sofisticado. É o ápice da utopia que mantém um objetivo bastante claro: reduzir a termo. É donde se nascem o conceito, o prazo, o padrão e o estampado. Quem diria, a verdade enrubesceu e assumiu a falta de possibilidade.

Mas ainda posso repetir ao doente que se familiarizou: inebriei-me sem sequência alguma – as doses que não eram de amor, vestiam-se de paixão. Fosse taberna ou castelo, cravei os pés neste cenário. De fato e, se fato ainda tem algum valor, saboreei a paisagem e também estive em seu desmanche. Hoje, se eu disser que me é devaneio, escolherei uma nova história para cada objeto trazido desse teatro. Logo em seguida, amanhã mesmo, se eu reconhecer a realidade do itinerário, devolverei o significado de todas as coisas. Mas em nenhum dia fundirei algum deles a mim!

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Karina Harley
Sobre insegurança e medo de críticas
Escrito por Harley


Eu sempre gostei daquela parte de “Tempo Perdido” em que Renato Russo diz “todos os dias antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia”. É simples, direto e até óbvio, mas diz muito. Acho que é por isso que tanta gente gosta dessa música. É até engraçado pensar que as melhores músicas são sobre pensamentos corriqueiros e coisas simples do cotidiano transformadas em alguns versos dentro de um apanhado de acordes. Costumo pensar que o maior desafio de um compositor é exatamente isso: fazer com que as pessoas se apropriem de suas músicas. Dar voz ao seu público, traduzir seus sentimentos e pensamentos. Só um compositor muito sincero, sensível e engajado conseguiria fazer isso. Mas enfim, não é exatamente sobre isso que quero falar, pelo menos não agora.

Comecei falando desse trecho de “Tempo Perdido” porque ontem a noite percebi que, ao invés de lembrar e esquecer como foi o dia, eu tenho o hábito de fazer outra coisa antes de dormir. Algo um pouco menos comum, mas ainda clichê: escrever artigos. E não são quaisquer artigos. São daqueles que quando lidos por algum editor na internet, rendem um convite para uma coluna em um jornal ou uma revista famosa. Que fazem a autora agregar centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, afinal, ela  escreve de uma maneira brilhante. Mas curiosamente não sinto coragem para levantar e escrevê-los, de fato. 

Esses artigos que eu escrevo mentalmente antes de dormir fazem mesmo eu me sentir brilhante, e talvez seja por isso que eu não os escrevo propriamente, para não correr o risco de que alguém – ou eu mesma, minha maior e mais cruel crítica - diga que eles, ou eu não o são. Dessa forma, eu os mantenho efêmeros e inquestionavelmente brilhantes em minha mente, ao menos por alguns minutos antes de dormir. Pela manhã, já dissolvidos, eles voltam para o infinito, de onde provavelmente vieram.

Acontece que ontem me deparei com uma situação que me fez querer escrever, algo que não faço há um bom tempo, talvez por preguiça, falta de inspiração, ou simplesmente porque alguém me disse que eu escrevo bem. É, eu sei que é estranho, mas em poucas sessões de psicoterapia descobri que desenvolvi essa “trava” ao longe de meus singelos vinte anos. É alguém me dizer que faço algo muito bem, que começo sentir uma pressão insuportável que me faz ter um terrível medo de não ser boa o suficiente e ironicamente isso faz com que eu não seja. Dizem que o nome disso é atelofobia, mas já me disseram que pode ser medo de críticas, já que, eu pessoalmente sou muito crítica comigo e tenho um pouco de dificuldade de assumir que fiz um bom trabalho.

Pra você ter uma ideia, consegui meus últimos dois empregos porque minhas chefes disseram que viram algo especial em mim, que eu tinha muito potencial. Não preciso dizer que isso, com certeza, comprometeu meu desenvolvimento e desenvoltura nos dois empregos. Há pouco tempo comecei a fazer aulas de canto erudito no conservatório de minha cidade e em poucas aulas o professor já me encheu de elogios. Disse que eu tenho uma voz linda, uma ótima extensão, que eu tenho muita facilidade de aprender e me pediu pra que eu fizesse os exercícios todos os dias e ensaiasse uma música nova para a semana seguinte. Eu, como não tenho a disciplina como uma de minhas virtudes e por me deparar com vários outros compromissos – inclusive com o ócio - não fiz nada do que ele me pediu. Resumindo, na semana seguinte eu não fui à aula. Tive a impressão de que ele ficaria completamente decepcionado pelo fato de eu não estar treinando, e eu não suportaria.

Lembro-me de que no último ano do médio minha sala foi convidada para montar e apresentar uma peça sobre sustentabilidade num evento importante para alguns homens de negócios. Por sorte, uma das alunas, na época pertencia a um importante grupo de teatro da cidade e chamou seu diretor – que chamou um outro amigo muito entendido no assunto - para nos ajudar. A experiência foi uma das mais incríveis da minha vida e a peça foi um sucesso. No final, eu chamei minha mãe para apresentar o diretor –  por sorte àquela altura já podia chamar de amigo - e me lembro que ele disse algo como “parabéns, sua filha é um prodígio”.

Ouvir aquilo de alguém que eu admirava foi tanto um grande susto como uma grande honra, mas aquelas palavras também me trouxeram um enorme peso. Com certeza eu queria fazer teatro, porque era algo que me dava um prazer imenso e fazia eu me sentir exatamente onde eu deveria estar, mas e se eu não fosse um prodígio? E se fosse apenas sorte de principiante? E se eu não fosse realmente boa? Pior do que isso, e se eu fosse um fracasso e ele percebesse que estava errado sobre mim? Eu senti que foi um elogio sincero e isso me fez muito feliz naquele momento, mas tudo o que pude sentir sobre isso algumas horas depois era dúvida e medo.

Passei também por uma fase em que fazia os trabalhos do curso de informática e não entregava. Tudo muito bem escondido e guardadinho numa linda casca de “não preciso provar nada pra ninguém”.

Alguns devem lembrar que eu tinha um blog. Inclusive está na lista de blogs desse site. Eu gostava mesmo de escrever nele, mas depois de uma indireta cruel e seguida de um olhar de desdém de um de meus colegas de classe na faculdade de moda (algo como “tenho nojo de alguns blogs”), eu simplesmente perdi a vontade de escrever. Eu até cheguei a escrever um texto meio perdido no meio das coisas vintage e moda alternativa, pretendia escrever umas 5 partes, mas nunca consegui passar da primeira. Até tive um milhão de ideias (antes de dormir), mas nunca coloquei “no papel”.

Bom, depois de tantos rodeios e desabafos, acho que está na hora de dizer que “num belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer”. Quase isso. Chegou um momento em que eu percebi que precisava quebrar esse círculo vicioso e mandar pro espaço todo esse pavor de crítica e necessidade de aceitação. Vou a escrever meus textos, começando por esse aqui, por mais idiotas e imaturos que eles me soem quando eu os leio. 

Uma vez eu li num blog que faz bem identificar essas travas (ou sabotadores) dentro de nós e rotulá-los. As vezes é preciso dizer "cale a boca crítica, eu não pedi a sua opinião" ou "não procrastinadora, eu não vou deixar isso pra depois". 

Parece papo de doido, mas dessa maneira eu descobri que eu posso voltar a gravar e publicar meus vídeos cantando e tocando, por mais horríveis que eu os ache quando os assisto. Posso me apresentar numa peça de teatro. Posso fazer aquela prova de solfejo o qual eu não estudei direito. Posso ir à aula de canto mesmo não tendo me dedicado o suficiente. Posso ser a última a sair da sala do vestibular. Posso voltar pra trás caso eu tiver errado o caminho. Posso fracassar, de novo e de novo, tudo bem. Eu posso TUDO! 
Só cabe a mim a decisão de deixar que esse medo me paralise e me impeça de ser tudo aquilo que eu posso ser  ou deixar ele de lado.

Que se explodam as expectativas que as pessoas depositam em mim. Eu não sou responsável e nem devo ter um compromisso com elas. Sei que não vai ser fácil, vai exigir disciplina e esforço. Às vezes esse medo me pega desprevenida e vem bater na minha porta, mas eu sempre vou ter uma escolha. 
Estar consciente de si mesmo, se auto analisar e tentar encontrar um equilíbrio talvez seja a coisa mais difícil a se fazer, e até acredito que nunca chequemos lá, de fato. Porém, com certeza é uma jornada que vale a pena, tanto para nós, quanto para os que nos cercam. 

Meu primeiro passo foi não deixar que essas palavras voltassem para o infinito e se deteriorassem, mas jogá-las no universo, plantá-las nesse mundo que tantas vezes nos é muito mais real. Talvez eu possa tocar alguém de alguma forma. Talvez pra alguns seja um texto bobo. Não importa. Porque ela também fala, e ela presisava falar.
E pra Harley medrosa e insegura que me suplicou pra não publicar essas ideias, vai o meu enter, vulgo "in your face, bitch". <3

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Deni Mazur
O Segundo Domingo de Maio
Escrito por Deni


     E o começo de tudo é uma escuridão, uma insegurança, o que virá pela frente, o que virá de dentro de mim, o que virá dos outros? Agora não tem mais volta, tudo vai mudar nos próximos dias, ele está chegando, ou será ela? Nunca nos encontramos antes, estou com medo, também ansiosa, alegre e triste, mas acho que é disso que é feito o amor, de tudo isso, se o amor fosse um sentimento único ele seria facilmente entendido, mas essa mistura de sensações é o que faz do amor o amor.

    Cada dia me sinto mais insegura, menos preparada para o cargo, mas também cada dia mais eu o desejo, desejo esse título, vou vencer e tomá-lo para mim, sou merecedora dele, talvez as coisas não se saiam tão bem no futuro… Mas quem sabe do futuro?

    Será em breve, ele está chegando, ou será ela? Quem fará essa entrevista? Estou nervosa demais, mas lá vem, chegou! É ele, mas se quando crescer, ele, desejar ser ela, que assim seja, vou amá-lo, vou sim, mesmo que eu diga que não, meu coração não me deixará mentir, vou envolvê-lo nos meus braços quando chorar e quando rir, vamos crescer juntos, vou sempre tê-lo gravado na memória como um quarto azul, uma paz de lua de prata, será sempre meu “Rock And Roll Lullaby”.

    Não sei o que é ser mãe, não posso entender isso a fundo, acho que nem as mães mais experientes entendem… Como entender o amor? Ser mãe é amor, apenas isso, não importa o tipo ou a idade da mãe, todas são feitas de amor, o mundo pode fazer parecê-las feitas de alguma coisa ruim as vezes, mas é de amor que nós somos realmente feitas, o que no mundo além do amor nos faria gostar dessas coisinhas que nos torturaram por meses?

     Agora meu filho, me ouça bem, você vai errar, e errar muito, e errar feio, mas também vai acertar lindamente, várias flechas no meu coração, vários sustos na minha alma, vários beijos no meu rosto, me trará preocupações e calma, ah meu filho, minha linda gentinha, passei na entrevista, sou tua mãe, agora quero que me realize apenas um pedido, me perdoar, por te amar demais, por te querer sempre perto, por ser chata com seus erros, me perdoe, mas nada no mundo, falo sério, nada mesmo é tão precioso pra mim quanto você o é… Ouviu? Agora corre seu pestinha, corre brincar nessa roda viva que é existir.

     Lá vai ele, longe, e irá mais longe ainda conforme suas pernas cresçam, vai meu filho, vai ser feliz, sempre estarei aqui quando precisar voltar, vai meu eterno pequeno, foge com o sol pro horizonte, vou ficar como a lua correndo atrás de ti, brilhando apenas por você ser meu sol, cuidando pra que mesmo na escuridão da noite haja um brilho pra te guiar, sai logo daqui, não me veja chorar, você não entenderia que essa água de mar que corre dos olhos é alegria e não tristeza, corre daqui, sei que vai partir no próximo barco, mas que vai voltar, vai voltar quando eu fechar os olhos, vai voltar quando eu olhar suas fotos, quando eu entrar no seu quarto, quando o sol nascer, vai voltar sempre, mesmo sem nunca ter partido.

     É isso, um beijo na testa e vai logo antes que eu decida não te soltar dos meus braços, e não se esqueça, quando não conseguir dormir feche os olhos e procure pelo meu “Rock And Roll Lullaby”, boa viagem meu pequeno, o mundo é imenso, mas eu sou Mãe.

 

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Matheus
Por que não?!
Escrito por Matheus


Mais uma causa pra lutar, mais uma chance pra viver, mais um por que para infinitos porquês.

Infinitas chances se passaram e infinitas promessas foram feitas de não mais errar, mas como sempre pra ele, o verdadeiro valor das coisas era quase sempre muito pobre ou desinteressante. Já não havia mais brilho naqueles olhos, pelo menos não aquele brilho que simbolizava o recomeço e sim, a certeza sólida de que tudo o que pensasse agora não passaria de um, insignificante, irritante, quem sabe até torturante, talvez.

Naquela noite, naquele clima, naquela casa, naquele quarto tudo o que havia sobrado eram coisas desorganizadas consequentes do desânimo causado por tudo o que havia acontecido.

Sinceramente, a esse ponto, nem ao menos ele, nem eu como narrador sabíamos se deveria haver mais uma pergunta ou se simplesmente devia ter sido esquecido o que se passou. Talvez tudo mude mais pra frente, ou sei lá, talvez continue tudo como está.

Talvez as coisas mudem mais por dentro do que por fora, talvez mudem por fora e não por dentro ou talvez, simplesmente foda-se o talvez.

Aquela música já não fazia mais parte de um simples entretenimento mas sim de uma terapia. Ás vezes é bom trocar o café, na cama quente com um bom livro por um show de rock, por que não? Depois de tantos solitários porquês, por que não perguntar “por que não?” Tantas coisas nos são negadas por uma moral que muitas vezes não concordamos, na maioria das vezes nem fomos nós que criamos essa merda apesar de alimentá-la com nossa reprimida covardia.

De repente, um pensamento o invadiu no seu mais intimo desejo.

“Que se foda aquilo que foi sofrido ontem, minha banda preferida está a tocar e tudo o que eu quero é sair daqui uma pessoa diferente do que eu era quando cheguei. Que o som seja a vibração a por de volta no lugar as minhas células de alegria e o meu canto seja a exorcização de meus demônios. Se as coisas vão mudar lá fora, eu não sei, mas aqui dentro elas já mudaram”. 

Jogando fora sua garrafa de cerveja outro pensamento invadiu sua mente. “Eu não preciso tomar um porre.

Apesar de em sua mente tudo ter sido muito intenso essa onda de pensamentos não durou mais que alguns minutos. A garota que o acompanhara até o show estava tão empolgada que nem percebera o seu filosófico devaneio. Os dois já namoravam a tanto tempo que ela já havia se acostumado com seus pensamentos distantes.

Sem se assustar a menina cedeu ao braço de Itan que a agarrou pelo ombro.

- Amor?

- Oi – respondeu atenciosa.

- Te amo – Um beijo simbolizou o fim de mais uma conclusão que ficaria arquivada em sua mente. Por que não?

 

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Ederson Oliveira
Mas em você dá pra confiar
Escrito por Ederson Oliveira


Eu acho que deveria te agradecer, pelas coisas que eu gostei e (principalmente, talvez), pelas coisas que eu não gostei de receber. Na verdade, acho que a gente ajuda mais o outro quando é autêntico e sincero no modo como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas do que quando vestimos a fantasia de super-herói e nos propomos a salvar a pátria. E você, ainda que de um jeito bem atropelado e desastrado, sempre manteve a coerência. Tudo bem fazer merda, elas fazem a gente aprender coisas tão lógicas e simples que não existe nada além da experiência que ensine. Não estou falando que você esteve sempre certa (embora adore bradar que é a dona da razão e que não a divide com ninguém), estou falando que seus erros mostraram o quanto a gente pode errar que ainda dá pra ter uma vida legal, sem entrar naquele estado de ficar cultivando equívocos antigos. Engraçado saber quando você tá com raiva de verdade ou quando tá só irritando pra achar graça. Mais engraçado ainda não ter a mínima ideia do que vai estar pensando amanhã, mas saber que não preciso me preocupar porque dá pra confiar. É essa a questão. A gente não conhece completamente ninguém nessa vida, mas em algumas pessoas a gente sabe que dá pra confiar. Não vai jogar fora seus hábitos estranhos, eles fazem o papel de interessar aqueles que sabem enxergar o quão legal você é. Não precisa ter medo de começar tudo de novo (de novo), você é boa nisso! Não fica desesperada com coisas tão bestas, porque eu vou rir muito da sua cara por isso ainda. Não precisa parar com o cigarro, só precisa parar de assoprá-lo na minha cara. E não, isso não é um texto de despedida. Bora tomar aquelas cervejas no final de semana?

 

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Amanda Lindner
Meio conto, meio poesia, meio nostalgia
Escrito por Amanda Lindner

Tu podes ser aquele borrão entre insensatez e calmaria, sabes? Que me consome em volúpia e faz esquecer até meu sobrenome. Ou, podes ser aquela insaciabilidade de respostas sobre banalidades que, se saem dos seus lábios que roçam minha orelha deixando em cacos qualquer espécie de autocontrole que eu nem me recordo mais de alguma vez ter existido, fazem-se de suma importância.

Tu podes ser aquele limite entre timidez e devassidão que se esvaeceu logo que contara que talvez me fizesse em fogo e acatei a ideia como bela. Ou, podes ser também a quem me atiro, me movo, me remexo, me destino a quem devasta a tralha que carrego comigo e me leva a qualquer parte que desconheço mas nem me importo e só pronuncio indistintamente ‘fica comigo’.

Tu podes ser aquele dono de beleza física mas não só que me aquece as noites os dias os pés as mãos os seios os sonhos os devaneios, entre as pernas, e me enrosca a mim e depois me abandona por quaisquer outras janelas ou verbos. Ou, podes ser também que me apossa e me coloca fora de órbita e depois sorri quando me vê descabelada e descalça vestindo sua camisa xadrez de flanela depois de lhe confiar carinho te dar um beijo e lhe entender desejo; que batuca os dedos nas minhas costas e conta como foi o dia e o que vai fazer de mim nas próximas 7hrs.

Tu podes ser aquele que me ignora e me deixa sozinha na cama fria e me deixa acreditar que desamor também existe. Ou, podes ser aquele que, caso resolva ir embora, findo não servindo pra nada. Vou virar pedinte, sem norte, sem fulgor.

Fique, fique comigo. Ao menos, mais ou menos, não me prive de um último momento gentil e me deixe abrigar-te em seus braços uma última vez.

Eu sei, quer dizer, acho que sei, que voltas. Talvez o que tenho dentro seja imenso maior do que penso e não me caiba só. Mas, se fores, me conte com quem deixará minhas memórias; ou se irá guardar na última gaveta do criado-mudo do quarto de hóspedes minhas histórias de onde abrolha e mora meu amor.

 

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Eron K. Nascimento
Perguntas de um trabalhador que lê
Escrito por Eron Nascimento

Por Bertold Brecht
 
Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tanta vezes?
Em que casas Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Cesares?
A decantada Bizancio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu alem dele?

Cada pagina uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.
 
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Matheus
Madrugada, janela, MPB e algumas reflexões...
Escrito por Matheus

02:48 A.M - Frio
Quarto escuro, cama de solteiro e insônia. 
Estado psicológico: preocupação em dormir, desejo extremo de uma compania de sexo oposto;
Vontade: transar, dormir, ser feliz quem sabe ou melhor saber o que eu quero de verdade... Não, mentira: TER PAZ! 
 
Solidão, noite e música tem o poder de nos fazer sentir tristes e reflexivos, com paz, mas ao mesmo tempo clamando por calor humano (talvez por isso as pessoas casam, né?).  E foi em um desses momentos típicos que eu me peguei refletindo sobre a vida e alguns assuntos de nossa psicologia.

Ah, madrugada, às vezes eu não sei se você clareia meus pensamentos ou me confunde ainda mais. Sabe, estou aqui mais uma vez nessa cama ouvindo aquela música do Zé Ramalho "Chão de Giz". Ela é triste? É, eu sei, mas é profunda e é isso que eu quero sentir, profundidade, porque quando não se sabe o que quer de verdade, tudo parece muito superficial, até mesmo nosso próprio reflexo no espelho. Bom, como eu vou chegar a algum lugar e descobrir os caminhos da vida se não reconheço nem a mim mesmo? Hoje foi mais um dia que aconteceu tudo de novo. Não vou mentir, madrugada solitária, minha ilustre terapeuta, é impossível eu mentir pra você. Novamente estamos aqui, só nós dois. Eu te confesso, querida, eu sou uma pessoa feliz, muito feliz, eu diria que tenho autoconhecimento e espiritualidade que causam respeito e admiração em muitas pessoas. Mas e daí? Sempre que nós nos encontramos eu me sinto assim, meu amor... Sentindo a sua presença e percebendo que sempre algo está faltando em minha vida. Será que deveríamos tentar um ménage? Colocar mais uma pesssoa aqui? Sério? É essa a sua proposta, madrugada? Me colocar mais um pensamento? Eu ja estou casado com você há tantos anos... Ok, aceitarei o coito com mais um integrante além de você essa noite... Quem seria esse pensamento? O conceito de Aproveitar a vida? Ok.
 
02:59 A.M
Quarto escuro, cama de solteiro e reflexões sobre a vida.
 
Aproveitar a vida sempre foi algo que eu dei muito valor. Sempre foi o que me fez não querer esperar pelas coisas e, claro, a vida é curta e eu não quero perder tempo. O utilitarismo também sempre esteve presente em minha vida. É preciso aproveitar o tempo a todo custo, porque afinal ele não volta. E essa foi a via de regra que me fez ter terminado pouquíssimos livros, mas ter lidos inúmeros pela metade, ter começado infinitos projetos e, simplesmente, degustado apenas o prato de entrada deles porque não tive paciência de esperar o prato principal, muito menos a sobremesa, afinal, não temos TEMPO. Quem olha de fora diz que eu sei muitas coisas, mas quem me olha por dentro, sem máscaras - que no caso é só minha querida amante, a madrugada -, sabe que eu não sei muitas coisas, porque a maioria do que eu sei está pela metade. Acho que é por isso que estou ouvindo esse som melancólico, mas profundo... Acho que é por isso que quando encontro minha amante - odiada por me fazer enxergar como eu sou e amada por me entender - me refugio à arte que dura de 3 a 5 minutos, no máximo, e fico aqui a desejar a paz e pensar em coisas que em sua grande maioria não farei. Sou viciado em criar projetos. Viciado em ser feliz de dia e ficar triste de madrugada, sou viciado em pensar... Sou viciado em querer aproveitar a vida, mas não parar para aproveitá-la porque eu não consigo parar para aproveitá-la porque não sei o que eu quero!! Porra! Como eu queria saber isso de verdade... Acho que eu preciso ter mais paciência pra deixar a mente me falar deve ser isso. Ou, talvez, eu só precise dormir... Ou parar de querer saber... Bom eu não sei. O coito acabou (conceito de aproveitar a vida), agora eu quero ficar apenas com a minha amante madrugada, pois amanhã falarei para a minha esposa "Manhã" que quero divórcio e assumirei minha amante madrugada como esposa legítima, porque a partir de agora quero viver como eu mesmo e sem máscaras de dia. E quando estiver a sós com minha agora esposa "Madrugada", não farei mais ménage com reflexões e a solidão, acolherei quem eu sou em meus braços e dormirei tranquilo porque a madrugada fria terá se tornado um dia quente, que traz luz às trevas e paz mesmo na escuridão. 
 
Amanda Lindner
Breve pelo desenquietar-se
Escrito por Amanda Lindner

Abriu-me a imensidão, o ribombar do peito. Confabulou-me o ínfimo.
Foste e voltara, foste e voltara. Tornou-me a ir e voltar.
Ficaste.
Pôs meu lado esquerdo em desordem, embriagou-me em caos. Agraciou com ausência de bom senso e fiquei a deslumbrar a beleza da insensatez: fez-me imensa, fez-me plena, fez-me singular, fez-me intrépida.
Talvez, se houvesse me acautelado limites, se houvesse misturado equilíbrio a todo meu torpor desmedido, de toda expectação; talvez doesse menos, talvez descuidasse-me esquecer. Talvez não fosse embora, talvez ousasse ficar.
Deveras, não furtasse meu arbítrio, deveras não ansiasse a queda, deveras não almejasse o despropósito... talvez, o recíproco não fosse banal aos olhos, e não aquecesse o peito.
Portanto, em meio a tanto deveras emaranhado a tanto talvez, lembre-se de contar-me o que lhe aflige a ausência. Ou, queira lembrar-me que meu narcisismo é angustiante.
Que encontre quem lhe acelere o peito.
Que tenha quem lhe furte o riso.
Que se achegue a quem lhe aquente o lado esquerdo.

 

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Manoelle
Borrões de mim
Escrito por Manoelle D'França

borroes

Crash, por Silvia Pelissero

 

Quem era eu?
Outrora fui cores
aromas
sabores
de aura forte e vívida
corpo são
e mente híbrida


Hoje não mais sou
hoje eu era
ontem eu seria
tanto queria
pouco sabia

Vi minhas cores espalhadas
por onde vim
pensei ser aquarela
mas eram borrões
borrões de mim
de volta aos rascunhos 
de minhas certezas
extinguindo-me
morrendo em mim mesma


Desfazendo-me
em tons negativos
perdendo meus sonhos sensitivos
transformando-me em graxa
em piche
não peixes em lívido cardume
apenas piche
betume


Tornando-me estrada
tornando-me a estrada
em que muitos passam
e nunca param
nunca procuram as cores
sobre as quais caminharam.


Manoelle D'França