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Dani Ribeiro
A caminho da pensão

Foi ali, naquele distinto lugar
Que houve um pouco de vida
Ungido de palavrões e bebida.

Congelou-se, esmaeceu a pequena quina
As cores das casas coloniais desgastaram-se
E o frescor do silêncio foi cortado pelo forte barulho da locomotiva.

Saí da minha absorção
Pensei, pesado, ensimesmado
Na morte violenta daquele instante.

Foram só pessoas, foram só solitários,
Errados, vazios, vadios, passantes
fundidos com o cheiro fétido do ribeirão
Onde os pequenos ratos espalham a crápula.

E que glória há num depósito cheio de podridão?
O ambiente está infestado pelas cópulas
As migalhas de alimento estão dispersas pelo chão
O cheiro da dama-da-noite confunde-se com a urina
E, depois da locomotiva, o que se ouve são gemidos
São só prazeres...

É vida orgânica se metabolizando, meu caro!

Dani R.F. 
Pintura de Maurice Utrillo 
 
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Dani Ribeiro
Salutante

A sensualidade da noite ainda não está finda.
Que cantem os pacatos noturnos sob o luar,
Na esperança de que o tempo passe com mais vagar.

Mas aqui, a juventude desbota suave, ligeira.
E o tempo corre, depressa, faminto.
O amor floresce no sexo, instinto.

E cá estão os enamorados extravagantes,
Extasiados, exagerados na embriaguez , saúdam!
Sabem que a vida é breve, e que o amor 
não passa
de uma 
Farra. 

-Morituri te salutant!

Dani R. F.

 
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Dani Ribeiro
Ressaca

São tantas horas, oh céus! 
Que vida breve, corriqueira
Ao som da gaita, viajo
Meu copo vazio degusta o vomito da ressaca

Sempre mais um pouco de melancolia
Escorrego nessa vadiagem
Com meus dedos que deslizam num piano imaginável
Componho essa banda que me anestesia 

Ainda inebriada, ouço.
Quantas tragadas de vozes graves, desarmônicas.
A flauta em puro pó espera dormente
São ritmos confusos, incompreensíveis

Fatigada das noites
Exilo-me do meu próprio lugarejo
Na pausa descompassada, movimento-me
Um desejo se desfalece e ressuscita antes do fim da noite

Em meio a rebuliços, meus pés se locomovem
O corpo hesita, mas dança por chãos movediços.
Ainda espero o copo, sem o vômito, 
antes de hidratar meu paladar embebedado.

Dani R.F.

Pintura de Edward Munch

 

 
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Dani Ribeiro
Desassossego
E se umas idéias incongruentes perpassassem tua mente?
A subserviência a elas te levaria à prisão repentina
E num ímpeto, uma fúria te assolaria e acabaria com tuas forças.

 
Eis que me sinto inapta a qualquer ato de violência
Mesmo que minhas pernas estejam se debatendo
E minha cabeça corroída pela cólera.

 
Assim estou,
Assim permaneço.
Desfazendo-me
E refazendo.
 

Dani R.F.
 
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Dani Ribeiro
Fragmentos Caseiros

sapatos_velhos
 
 
Surto inopinado
antes do alvor.
Gagueira insiste
não há palavras
Ouve-se vozes
de ratos.
O Queijo podre
lança o golpe.
A formiga
na fila eterna
espera o grão
a migalha
a sujeira
e decompõe-se
junto à matéria
orgânica.
No teto
os cupins
devoram
a roupa
a madeira
a carne
os sentidos.
E Proliferam-se.
Também a água
contamina-se
infiltra-se
na parede
no teto
na veia
e faz mofar
o que era belo
Os moveis
no pó.
A roupa
desgastada.
O sapato sujo
e velho
no chão.
O abandono.
A casa
um porão
fede urina
carniça
perde o viço.
Perdem-se
também
os amores.

Dani R.F.

 
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Dani Ribeiro
Ser ou não ser

Joel Birman

Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico.

Seria em decorrência disso que a incerteza é o que se delineia efetivamente como o futuro real para os jovens, em todos os quadrantes do mundo.

Como se pode articular essas diferentes versões da juventude na contemporaneidade, numa narrativa que seja coerente e consistente?

É preciso destacar, antes de tudo, que a possibilidade de experimentação foi o que passou a caracterizar a condição da adolescência no Ocidente, desde o final do século 18, quando as idades da vida foram construídas em conjunção com a família nuclear burguesa, em decorrência da emergência histórica da biopolítica.

Nesse contexto, a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre a infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar, para reproduzir efetivamente as linhas de força da família nuclear burguesa.

Os romances de formação (Bildung), na tradição literária alemã, descreveram com fartura as sagas dos jovens na abertura da modernidade. Dentre eles é preciso evocar Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34), de Goethe, que delineou com detalhes requintados o perfil da construção moderna da adolescência, sendo até mesmo sua narrativa paradigmática.

Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões. Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. Isso foi a condição de possibilidade concreta para a desmontagem da família nuclear burguesa.

Com efeito, as mulheres como mães eram as peças fundamentais para fazer funcionar esse modelo familiar, pela articulação que realizavam entre a gestão doméstica e as instituições médica e pedagógica, em nome do imperativo biopolítico, de produção da qualidade de vida da população.

Em seguida, porque o deslocamento das mulheres da posição exclusivamente materna foi o primeiro combate decisivo contra o patriarcado, que forjou nossa tradição desde a Antiguidade. Os posteriores movimentos gay e transexual vieram nos rastros do movimento feminista, inscrevendo-se nas linhas de fuga da crítica do patriarcado.

Com isso, a problemática da autoridade foi efetivamente colocada na berlinda, devendo ser remanejada desde então.

Finalmente, a construção do modelo neoliberal da economia internacional, em conjunção com seu processo de globalização, teve o poder de incidir preferencialmente em dois segmentos da população, no que tange ao mercado de trabalho. De fato, foram os jovens e os trabalhadores da faixa etária dos 50 anos os segmentos sociais mais afetados pela voragem neoliberal.

Com isso, se os primeiros passaram a se inserir mais tardiamente no dito mercado, os segundos passaram a ser descartados para ser substituídos por trabalhadores jovens e mais baratos, pela precariedade que foi então estabelecida no mercado de trabalho.

Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando então os jovens fora do espaço social formal e lançados perigosamente numa terra de ninguém.

Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho, a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico, prolongando-se efetivamente, não tendo mais qualquer limite tangível para seu término.

Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.

Esse processo ocorre não apenas no Brasil e na América Latina, mas também em escala internacional. Pode-se depreender aqui a constituição de uma cultura agonística na juventude de hoje.

Contudo, essa cultura de combate é apenas a face de uma problemática mais abrangente, na qual o verso é a presença aterrorizante do desamparo, que marca o campo da juventude na contemporaneidade, em que o medo do futuro e a insegurança do existir se perfilam efetivamente como espectros.

No entanto, é preciso evocar ainda que, se a violência e a delinquência sempre foram atribuídas às classes populares, construindo o ethos e o habitus delas em sua estratégia de sobrevivência, elas hoje também se fazem presentes nos segmentos jovens das classes médias e das elites.

Vale dizer que, em consequência das novas condições precárias do mercado de trabalho, regulado pelo ideário neoliberal, as classes médias e as elites passaram a se defrontar com os mesmos impasses, nos registros do reconhecimento social e simbólico, que marcaram outrora apenas as classes populares.

Assim, a violência juvenil transformou-se em delinquência, inserindo-se efetivamente no registro da criminalidade. No Brasil, os jovens de classe média e das elites passaram a atacar gratuitamente certos segmentos sociais com violência. De mulheres pobres confundidas com prostitutas até homossexuais, passando pelos mendigos, a violência disseminou-se nas grandes metrópoles do país.

Ao fazerem isso, no entanto, seus gestos delinquentes inscrevem-se numa lógica social precisa e rigorosa. Com efeito, tais segmentos sociais representam no imaginário desses jovens a decadência na hierarquia social, sendo pois os signos do que eles poderão ser efetivamente no futuro, na ausência do reconhecimento social e simbólico que os marca.

Ao lado disso, a cultura agonística manifesta-se ainda nos combates que se estabelecem entre jovens nas corridas noturnas de carros, assim como nas brigas frequentes que ocorrem nos bairros frequentados pela juventude nas grandes cidades. Foi ainda nesse contexto que se estabeleceu recentemente na tradição brasileira o assassinato de pais pelos filhos, demaneira inesperada e regular.

Finalmente, a cultura da força empreende-se regularmente em academias de ginástica, onde os jovens cultuam os músculos, não apenas para se preparar para os combates cotidianos da vida real, mas para forjar também um simulacro de força na ausência efetiva de potência, isto é, na ausência de reconhecimento social e simbólico, lançados que estão aqueles no desamparo.

É nesse registro que se deve inscrever a disseminação do bullying na contemporaneidade. É preciso dizer, no que concerne a isso, que a provocação e a violência entre os jovens e crianças é uma prática social antiga. O que é novo, contudo, é a ausência de uma autoridade que possa funcionar como mediação no combate entre estes e aqueles, o que incrementou bastante a disseminação dessa prática de violência.

Ao lado disso, é preciso dizer ainda que, pela luta e pelo combate agonístico com os colegas considerados mais frágeis, os valentões preparam- -se já para o futuro, para a selva do mundo neoliberal, restringindo desde cedo o campo da competição pelo estabelecimento da hierarquia entre os corpos, pela serialização da força existente entre eles.

Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. A juventude seria então a condensação simbólica de todas as potencialidades existenciais. Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizoua adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade.

Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental, onde se busca pelo desejo a possibilidade de novos laços amorosos e novas modalidades de realização existencial.

Seria assim o imperativo de ser, custe o que custar, o que se impõe a nós como exigência ética na contemporaneidade de maneira incontornável, consubstanciado nas linhas de fuga do desejo e delineando a figura da adolescência infinita. Por isso mesmo, nas narrativas fundadoras da subjetividade contemporânea, é o mito de Hamlet (Shakespeare) que se impõe efetivamente, deslocando a figura de Édipo que dominou o imaginário ocidental na modernidade, disseminado que foi pela versão dele estabelecida pela psicanálise.

Joel Birman é psicanalista e professor titular do Instituto
de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Extraído do site da Revista Cult: 
http://revistacult.uol.com.br/home/2011/05/ser-ou-nao-ser/ Acesso em 12/05/11

 
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Dani Ribeiro
Casamento

 

Há dois cômodos brancos na casa
Que separam duas vidas incomuns
e se fazem presente na estranheza do convívio relutante.

No café, a amargura do gosto quente
Mistura-se com o mau hálito do álcool da véspera
Entre um sussurro e um grito
O ódio queima as vísceras do inimigo.

À tarde, a cópula ainda indesejada
Causa violência estomacal. 
O outro fica a observar como bicho faminto
As unhas vermelhas que tocam a vulva.

Sem palavras e muitos ressentimentos,
Impregnado de imagens eróticas
O casal se sacia com a masturbação
E se vê obrigado a partilhar o alimento. 

Dani R.F.
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Dani Ribeiro
A Procissão

Um murmúrio vindo de longe ressoa pelo alto-falante
Ainda indistinguível, mas já anuncia a morte.
Homens e mulheres lamentam-se como de costume
E adornam suas casas com uma manta roxa e branca

A procissão aproxima-se melancólica e vagarosamente 
Seus seguidores unem-se para chorar a morte de Cristo
O corpo santo segue em frente, venerado por seus fiéis
Maria, mãe de Jesus, em lamúrias, quase se desfalece. 

As velas acesas, o incenso, o aroma das flores noturnas
O vento que abraça a multidão e ameaça as luzes
Uma canção lúgubre cantadas por milhares de vozes
Acompanha o séquito sagrado de sexta-feira santa.

Vejo a procissão interminável, caminhando sorumbática 
Os semblantes graves, mal iluminados pela vela
As vozes que arranjam a música com tal imperfeição
Que chega a ferir a imponência do culto religioso.

Companheiro, não sinto outra coisa além da compaixão.
Bem posso sentir o cheiro forte da terra...
Todos aqueles que ali caminham desconhecem
O triste fim que por eles, espera.

Dani R. F.
* Escrito na Semana Santa (2010)

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Dani Ribeiro
Aniversário
Todo ano
No dia do aniversário
Era a mesma comemoração
Gente simples, mas afável
Não deixava o dia em branco
 
Que felicidades para a menina!
A mãe confeitava o melhor bolo do mundo
O pai dava-lhe uma singela lembrancinha
A tia alguns trocados
E recebia ligações de alguns poucos amigos
 
Todo ano
A mesma coisa
Um bolo, uns salgados e refrigerantes
A pequena família se reunia em volta da mesa
A cantar para a menina que crescia prazenteira
 
Menina virou moça
E já tinha outros anseios
Só encanecia vendo os dias passarem
E achava o seu aniversário
O pior dia do ano
 
Foi-se embora de casa
Para os pais, deixou o pesar.
Uma vez por ano
A mãe confeitava o bolo
E ficava à espera da filha


Dani R. F.
http://suburbanamente.blogspot.com/

 
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Dani Ribeiro
"Quando o Carnaval Chegar..." Chico Buarque

 
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