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Manoelle
Presentes Vislumbres do Passado

Serena menina ao sereno da madrugada
Brincava na beira do oceano que com a água agitada
Espalhava conchas pela areia límpida
Que lambia os pés da menina, cuja alegria era nítida.

Enquanto a lua vigiava sua candura
A menina corria, de vaga-lumes estava à procura
A eles fazia pedidos como se fossem fadas
Que quando soltas, iam ao encontro das estrelas brilhantes no céu penduradas.

O vistoso algodão-doce no céu
Estava distante demais para suas mãos miúdas
Cobria a lua como um véu
Mas sequer chegava perto de sua boquinha pedinte de açúcar.

As flores que dançavam com a suave brisa do mar
Serviam-lhe de coroa para reinar sob os encantos do luar
A areia era da princesa o aposento
Até que amanhecesse em seu quartinho decorado
Com o coração sonolento e sonhando alto.


Manoelle D'França
(Originalmente publicado em Maphago.)


 
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Manoelle
E se?


Se você disser que me ama, esperará que eu me entregue?

E se eu disser que nunca me entrego, nem aos meus obstáculos e nem a ninguém?
Se eu disser que te amo, você será incondicionalmente ao meu lado?
E se eu disser que o incondicional não há?

E se eu provar que não sou como as outras?
Que piso em todos que se curvam demais diante de mim?
Ainda assim tentaria encarar-me na altura dos olhos?
E se eu os fechar?

E se eu disser que não presto?
Decidirá correr incansavelmente atrás de mim?
E se eu disser que correr não adianta, porque só sei voar?
Ainda assim você decidiria pegar carona com um anjo?

E se eu disser que um anjo levaria-te alto demais, enquanto que eu voo quase com os pés no chão?
Ainda assim tentaria flutuar para alcançar-me?
E se eu disser que não sinto nada por ti, você acredita?
E por que será que, apesar de tudo, eu também não acredito?

 

Manoelle D'França

(Minha veia poética em uma fase meio clichê. Texto originalmente publicado em Maphago).


 
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Manoelle
A Velha Morada


Desenho espirais na poeira da mesa.
Enquanto junto as cadeiras, relembro as cenas de uma antiga surpresa.
As fotografias e roupas espalhadas pelo chão,
Trazem-me ao pé do ouvido uma velha canção.

Cândidos pássaros invadem a casa,
Fazem-me acreditar em um possível recomeço.
Solos de piano invadem a sala
E fazem-me esquecer de tudo o que ainda conheço.

Sons que surgem do passado,
Pássaros enviados do futuro,
Luzes que ascendem das janelas,
Fazem-me respirar fundo.

Há algo distante daqui,
Porém vivente dentro de mim.
Algo parecido com esperança.
Contudo, não é bem o que parecia,
Recai-me como nostalgia.

Algo ainda habita a velha morada
E ainda deixa passos pelas escadas.
Algo como o brilho nos olhos de uma criança,
Que parecem relâmpagos de alegria
Distantes de quaisquer lástimas,
Mas que na verdade, são apenas lágrimas.

Manoelle D'França

(Originalmente publicado em Maphago.)

 
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Manoelle
Materno

Tornou-se mulher
a moça que um dia foi menina.
E seu ventre fez-se crescer,
Fez-se nascer, gerar vida.
Anjo de luz esvaindo-se em amor,
Ser santificado
que traz em seu sangue a dor.

Mulher, genetriz, cúmplice, irmã;
Doce cantiga de cada manhã.
Amor inabalável,
Perdão incontestável.
A bússola que me leva ao norte,
A mais frágil das obras,
Erigida em colunas violentamente fortes.

A torre, o refúgio, o pão.
Guia que me carrega pela mão.
Do seu corpo perpetrei meus alentos:
Em seu ventre, lar;
Em seu seio, alimento.

Mãe.
Teu gerar penoso,
Teu olhar cauteloso,
Teu doce acalento,
Trazem-me proteção contra o cruel relento.
Mulher que ao conceber, fascina;
Teu incondicional amar ensina
que de tão esplêndida,
Para Mãe, não há rima. 

de Manoelle D'França


 
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Manoelle
Canário & Carina



No topo da colina

Vive uma menina
Preciosa beldade
Bonita Carina.
Menina, me olha
Carina risonha
A altura do monte para mim é peçonha.
Menina Carina
Levante o vestido
Ponha os pés no lago e faça um pedido
Que algum canoeiro a traga consigo
Que a deixe na margem e em tom de perigo
Avise que os pássaros tomam o lugar.
E quando te vir, para ficar contigo
Aprendo a andar ou te ensino a voar.


 
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Manoelle
Partindo com a Lua

http://fc04.deviantart.net/fs21/f/2007/300/e/d/eda432291c386e3a.jpg

Admirei a Lua antes de partir.
Conversei com ela
e confessei ter acordado pensando em coisas sem sentido,
Do tempo em que, à noitinha, eu sussurrava em seu ouvido.
Senti saudades do que não tive, daquele amor não correspondido;
Dos sonhos que, jogados pela janela,
Foram parar em outros travesseiros;
Daqueles teus carinhos, tão cínicos e traiçoeiros.

Desci, então, as escadas do velho terraço
e fui em direção ao quarto pouco iluminado;
Despedi-me do facho de luz que me escapava pela cortina.
Deslizei os dedos pelos livros empoeirados
e despedi-me docemente do antigo espelho quebrado,
Que todo o tempo lembrava-me de meus fracassos;
Mostrando-os a mim todos os dias de minha vida,
Não permitindo-me que se sarasse sequer uma ferida.

E então, parti.
Mas deixei um rastro antes de ir.
Rastro feito com o sangue da ferida exposta em meu coração,
Ferida feita pelas punhaladas da solidão.
Em meu sangue, sujei a velha caneta-tinteiro
e deixei uma mensagem ao próximo marinheiro:

'E daqui partiu com a Lua um espírito solitário,
Que não mais cursa o mesmo caminho.
Alguém que após o abandono,
Sentiu o frio da solidão congelar o sangue
outrora corrente em suas veias.
De um coração moribundo largado às tantas de uma madrugada.
De um ser andarilho viajando de volta ao pó da criação humana.
De uma única centelha apagada há tempos.'


                                                          de Manoelle D'França


 
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Manoelle
Pureza Daninha


Ó, rainha, erva-doce, erva minha.
Venenosa estrela-de-anis, dos lábios de botão de rosa e olhos negros como cassis.

Ó, mulher, feiticeira; ó, menina.
De alma impenetrável como um espelho, 
Refletes minha imagem de volta sem revelar-me teu interior;
Bem como o imaginário mel dos teus lábios deixa-me em dissabor, 
Por não saber seu gosto,
Por ainda não ter descoberto o grau de ebriedade que me traz este amor pressuposto.

Branca rosa, recendendo a sedução.
Quero provar da tua doçura, quero sentir o toque da tua mão.
Quero tocá-la suavemente, como se toca as cordas de uma harpa, 
Quero bebê-la numa taça de cristal.
Para remover do meu coração esta farpa,
Só mesmo tua inocência cedendo a este amor irracional.

Quero descobrir tuas belas curvas, moldando-as como barro.
Quero ter-te acolhida, sob o meu afago.
Quero mostrar-te o céu, e remover de minha boca o fel da desilusão.
Quero provar-te, quero amar-te.
Quero dar-te meu coração, moído em reluzentes grãos de paixão.
Quero dar-te de um homem apaixonado, a devoção.

Dê-me a oportunidade de fugir dos meus sonhos e viver a tua realidade
Deixe-me mostrar-te o que é o amor de verdade.
 
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Manoelle
Colorida Desordem


face



     O amarelo era o elo singelo entre a cor e a coragem. Porém, avidamente a vida mente sobre a sequência das consequências.

    Do amarelo, amar e elo, surgem a cor, a coragem e o singelo. Do amarelo-coragem, procedem amar, elo e cor, que unidos agem.

    A simples desordem da ordem que desmonta as dez montanhas do pensamento, em certo momento.

    Do rubor da rubra dor, o que vem primeiro? O primo ou o herdeiro? Do tintureiro, a tintura ou o tinteiro?

    Desta desordem, seguem-se mais que dez ordens.


 

de Manoelle D'França
(Mais em http://maphago.blogspot.com)

 
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Manoelle
Mas, e as rugas do seu pai?

    Durante uma tórrida tarde de domingo no Sertão brasileiro, um homem cortava lenha para o fogão de sua senhora. Os seis filhos corriam pela casa, deixando a dona desorientada com o tempero da refeição. Enquanto o homem calejava suas mãos com o machado, uma de suas crianças sentou-se em um toco próximo de onde ele estava e pôs-se a observá-lo. De repente, a menina começou a fitar as próprias mãos como se as mesmas não fizessem parte de seu corpo. O pai notou-a e cessou os cortes de lenha.

       Mas o quê que há, menina?

       Eu... eu odeio isso — retrucou a mocinha. 

     Isso o quê? — perguntou o pai, já indignado com a figura da menina odiando algo enquanto rejeitava as próprias mãos.

       Odeio quando minhas mãos enrugam, papai! — ela olhou para o homem.

       E o que fez enrugarem suas mãozinhas?

     Eu estava brincando com os meninos no rio, e quando saí da água, minhas mãos estavam assim.

     Não se preocupe, pimpolha. Logo, logo elas estarão esticadinhas como o de costume  disse o homem, voltando a cortar a lenha.

    Relutante, a mocinha continuou com os olhos vidrados nas próprias mãozinhas. Novamente, o pai repousou o machado.

     Se continuar assim, quando estiver da minha idade vai querer se livrar dos espelhos da casa. Pare com isso.

     Ontem uma mulher disse no rádio que um moço alisou a pele dela — contou ela.

     Alisou a pele dela? Você quer dizer, um médico lhe fez uma plástica?

     Sim! Eu acho que... Sim, uma "pástica"! — Ela afirmou, vibrante.

     Plástica.

     Isso aí. Posso fazer isso nas minhas mãos, papai?

    O homem riu, com a face corada do sol agressivo.

     Você é uma criança. Crianças não fazem plásticas  ele disse, voltando a cortar a lenha.

    Parou com o machado, novamente.

     Ninguém deveria fazer plásticas, isso vai contra a ordem natural das coisas.          

     Como assim?

    O homem largou de seu machado, limpou as mãos na calça e sentou-se junto à filhinha. 

     Todo mundo vai ficar com a pele enrugada um dia.

     Por que?  ela finalmente abaixou as mãos e prestou os olhos ao pai.

     Por que todos envelhecemos.

     Mas se um médico alisa sua pele, você não precisa mais envelhecer, papai. A mulher do rádio disse que as rugas são feias, elas deixam as pessoas diferentes.

     Deixam. Mas elas têm um significado, todas elas.

     As rugas?

     Sim.

     O senhor tem muitas.

     Eu sei  disse o pai, sorrindo.  Agora, toque nelas. Toque nas rugas do papai.

    A menininha colocou levemente as mãos miúdas nas bochechas do pai, e começou a acariciá-las suavemente.

     Como elas são?  Perguntou o homem.

     São fundas. Mas o que elas dizem? Você disse que elas dizem alguma coisa.

     Elas contam toda a minha história, a história de sua mãe, a sua e a de seus irmãos.

     Papai, suas rugas falam?  indignou-se a menina.

     Falam. Você não pode ouvi-las, mas pode senti-las.

    Ela tocou as rugas laterais da boca do pai.          

     O que estas duas rugas dizem?

     Elas dizem que eu amo todos vocês. Sabe por quê? Por que quando cada um de vocês nasceu, eu sorri durante meses seguidos! E cada um desses sorrisos foi deixando suas marcas em meu rosto, até que ficassem tão profundas quanto você pode sentir agora.

    Os olhos da menina se acenderam.   

      E essas, nos cantos dos seus olhos?

     Essas foram deixadas aí por todas as vezes que o papai chorou de tristeza. Cada uma delas representa um momento triste da minha vida.

      Então... ninguém conheceria o senhor se tirasse essas rugas?   

     Ninguém. Estas marcas, pimpolha, são todo o meu passado, o nosso passado. Não se deve temer às rugas. Quem tenta esconder suas rugas, tenta esconder seu passado; quem tem vergonha de suas rugas, tem vergonha de seu passado, tem vergonha de ser quem é e de ter sido quem foi um dia. 

    Ele sabia que naquele momento talvez ela não compreendesse plenamente aquelas palavras, mas que um dia ela refletiria nelas e, nesse momento, elas se encaixariam perfeitamente em sua cabecinha pensante.

     Eu não tenho vergonha das suas rugas, papai; e nem das minhas! As minhas contam que tomei banho de rio!  disse a mocinha, estendendo as mãos para que o pai as olhasse.  E quando as minhas aparecem de verdade? 

    Quando tiver idade suficiente. Mas quando elas aparecerem, jamais se envergonhe delas, porque as rugas são a beleza em braille.

    A menininha sorriu e abraçou o pai.

     Papai?

     Sim.

     Suas rugas são lindas. 


Certa vez, um sábio homem chamado Pai, contou-me que envelhecer é um privilégio.





de
 Manoelle D'França
(Mais em http://maphago.blogspot.com/)

 
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Manoelle
Doces amargos sonhos

    


 

   Todas as minhas noites... Todas elas, são mágicas.

   Da porta dos meus aposentos à maciez do meu travesseiro, todos os meus sonhos se realizam, e então eu consigo ser indiscutivelmente feliz por algumas horas. Preciosas horas.

   Mas é digno de ser lembrado que momentos bons voam. Passam tirando tudo do lugar e, de repente, somem como uma tempestade repentina, como chuva de verão. E então tudo se acaba... outra vez.

   Minhas noites são mágicas porque eu as passo todas acordado, desperto, ocupado demais para dormir; realizando meus sonhos mais improváveis, doces, impossíveis.

   Meus doces amargos sonhos. Que são doces por darem cor às minhas noites sombrias, e amargos porque todas as manhãs voltam a ser preto e branco como uma fotografia antiga corroída pelo tempo.

   Minhas tristes e volúveis manhãs, que cobram-me todos os dias o alto preço por sonhar demais. Alto preço que me dói pagar, pois não pode ser quitado com as "preciosidades" pelas quais a humanidade se autodestrói, mas sim com algo muito mais valioso: O amor à própria alma. Amor pálido, falido, amor do qual já não me resta nada, de tantas dívidas que tenho pago às minhas manhãs.

   Oh, minhas manhãs. Elas não sentem dó deste pobre diabo que vos fala.

   Esses meus doces sonhos que me realizam todas as noites, são os mesmos que me fazem despertar com o coração amargo por descobrir todas as manhãs... que é tudo ilusão de meu espírito itinerante e devaneador.

   Por isso, meu coração está ferido, porém já repleto de cicatrizes. 

   Eis meu mal tão singular: a Doença dos Sonhos, crônica, degenerativa; que vai formando sulcos em seu coração até que sejam o suficiente para rasgá-lo ao meio, até que você não mais suporte a dura realidade de saber que seus doces sonhos são amargos e extintos.

 


de Manoelle D'França
(mais em http://maphago.blogspot.com/)


 
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