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Samira
Encontro

encontro

Encontrei-te na margem
Na espuma do meu café
Encontrei-te no parágrafo
No fundo do espelho
Encontrei-te sem mim
Deitado no ventre
Num outro ventre
Ou no tapete
Calado.

Encontrei-te no ensaio
Num quinteto de sopros
Cordas, martelos
Encontrei-te na cadência
A minha preferida
Encontrei-te em coisas tão minhas
Em poemas tão meus

[Amar quem não nos ama
Encontrar quem não nos encontra
Esconder a face
Mergulhar em vergonha
Em entulhos de culpa
Que vira overdose de arte]

Encontrei-te na tempestade
Esperando o táxi
Escorrendo no guarda-chuva
Fugindo de encontrar-te
Encontrei-te em meu sonho
Na minha página preferida
Na minha afinação
Encontrei-te tranquilo
Descansando no meu ódio

Encontrei-te e não queria
Naquela grande fila
Encontrei-te nos olhos do atendente
Nas mãos inexperientes
Nas cortinas do teatro

Depois encontrei-te sarcástico
Rindo do meu poema
Das mãos trêmulas
Das notas falhadas
No piano desafinado
Aplaudindo o fracasso

Encontrei-te...
No meu suspiro...
No meu amor solilóquio.


(Samira Costa de Assis) 
 

 
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Samira
Canção interna

Quando ele cantou
Cantou dentro de mim
Fico pensando assim
Se ele já se imaginou
Cantando dentro de alguém
Um senhor desconhecido pra mim
De barba por fazer
Vomitando um do la si
Solfejando pelos olhos
A alma que vive em si

Num dia frio como aquele
Nada esquentaria meu ser
Nada...Nem café

Ele cantou dentro de mim
E aposto que nem sabia.

(Samira Assis) 
 

 
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Samira
Arte-corpo



Eu implicava com meu cabelo.
Reclamava do nariz turco.
Falava mal dos olhos turvos
Lamentava os seios pequenos
Queria mais volume às nádegas
Almejava a pele mais macia
Quis os pés mais delicados
Torci o nariz para as curvas da barriga
Desejei mais alvura no sorriso
Reclamei do andar torto e desalinhado
Desgostava da altura pequena
E das covinhas que me faltavam.

Mas pensa só:
Como deve ser triste para o Criador
Ver sua própria obra de arte
se queixando de seu reflexo no espelho.

(Samira Assis) 
 

 
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Samira
Ah, o amor ou o desamor?


O amor é triste
E na tristeza se conhece
A real alma que o habita
O amor é aceno de longe
Arde em vermelho dentro dos olhos
Quer gritar mas não grita
O amor não ergue placas
Nem balões coloridos
Amor não se disfarça em adornos
Não se esconde em arranjos de flores

Suspeito que o amor odeia ser amor
Porque amar também é dor
O amor tão timido e quieto
Rasga todas as paredes
Essas intactas da alma

O amor é medroso, covarde, frouxo
Não esconde o medo de saber que é amor

Esse não se desdobra em fogos de artificios
Fica quieto, latejando no corredor
Acha que olhos são ilegíveis
Pensa que seu amor é analfabeto

Falar de amor é tão fácil
E falar de amor no século XXI
Esse amor tão bordado...


(Samira Assis) 
 

 
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Samira
Mapas distintos



No mundo meu
Faz sentido
O que não faz no seu
Não vivo dentro de sua pele
Talvez vá viver um dia na superfície
Nessa arrepiada e fria epiderme

No mundo meu
Não sou passarinho
Mas criei as asas literárias
Que me fez fugir da loucura
A loucura que não é a mesma
Que essa loucura tua

No mundo meu
Não dói a ferida
A mesma que dói em ti
Tem estantes de coisas inúteis
As coisas que no fim
Como borboletas pousarão em mim

No mundo meu
Tem mundo que nem é seu
Tem pedra que não tem no seu sapato
Tem histórias que seriam mito
Para os seus desesperados ouvidos

E no meu próprio mundo
Tem mundo que ainda nem é meu
Tem coisa que nem nasceu
Tem poesia que nem vingou

Mas nesse mundo meu
Tem sempre um pouco do mundo teu.

(Samira Assis) 
 

 
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Samira
Gravidade Morta



Eu revirei minhas coisas
Daquelas caixas que transbordam de passado
Eu senti cheiros adocicados
Nunca mais tinha feito
Essa tolice de mergulhar
No passado e se afogar.

Mas eu fiz
O que fiz ta feito
Eu ouvi uma canção nova
Na voz de uma cantora
Que um dia você me apresentou
Algum efeito causou em mim
Enquanto atravessava a avenida
O sol caía em minhas costas

Você, é claro, foi embora.

Ê que vida mais à toa!
Mas eu gosto de viver
Eu gosto de viver!
Gosto de lembrar do gosto
Da sua boca
Gosto até, que masoquismo,
Dos espinhos das suas palavras
Empunhando sobre mim

Era uma canção mais ou menos assim
"Down into a clearing..."
Mas fugi dela mesma
Quando vi que você estava em mim
Pairando como fazia alguns anos atrás
Aqueles mesmos olhos
Frios... tristes... moribundos

Quase saí pulando
Como criança
Sensação esquisita
Entre chorar e se matar de rir

Não doeu como antes
Não te quero agora
Nem quero amanhã
Não funciona
É só uma sensaçãozinha que passa

Above the tattered flags...


(SAMIRA ASSIS) 
 

 
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Samira
Poema do meio do caminho



Olha ao redor, quanta gente!
Quantas vozes, quantas vezes!
Note que estamos bem no meio
Que canônico! Que randômico!
- Sai da frente!
É assim o dia inteiro
Abaixar para amarrar o cadarço
Aplaudir o artista.
Bravo! Bravo!
Quanta gente, pouco espaço
Que falta de respeito
Que falta de oxigênio.
Quanto calor, quanta gente
Alguem deixou cair a carteira
A identidade caiu no chão
Quebrou a cara.
Moço, uma esmola?
O casal beija no meio do caminho
Com licença, obrigado
Falta de léxico
Falta o chão
Mistura de cores
Mistura de odores
Quanta gente encosta
Quanto contato físico sem querer
Quanta gente!
Quanta gente!
Que solidão...

(Samira Assis) 
 

 
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Samira
Contradição

Já te disse milhões de vezes que não uso hipérboles.
E que metáforas azedam minha vida.
O que era bonito, com antítese fica feio.
Comparação é como um falso galanteio.
Eufemismo faz minhas ideias perderem a vida.
O brasileiro nunca soube o que é metonímia.
Mas entende bem de pleonasmo.
[O político corrupto elegeu-se em marasmo]
Eu tento buscar uma prosopopéia
Mas perco o foco quando o vento entra pela janela.
E a essas alturas perdi minha lucidez.
Uso paranomásias sem presumir.
Sem ironia, a TV me faz rir.
Eu provei a cor da sinestesia
Mas na verdade só quis escrever poesia.

(Samira Assis)

 
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Samira
Un sospiro (Allegro Afettuoso)

O que mais tenho feito, sonhado
De noite em minha cama feito nuvem
Pairo no céu de Março
Liszt furtou novamente meu suspiro

Eu só vou indo
Pra onde? Que importa?
Se fui parar no pentagrama
Se virei um bequadro na nota
Que importa?

Fui me distraindo com o tempo
A ponto de quase pedir ao garçom do Cafe
- Uma dose de sostenuto, por favor!

(Samira Assis)

 
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Samira
Soneto de prata e segredo

casal

A prata reluzia em seu dedo
Qualquer que fosse a do menino
Amortecia seu lábio fino
Que desvendasse meu segredo

E se ficássemos a sós
Eu esqueceria a cor da prata
Como um nó que desata
Se não formasse outros nós

Mas o juízo nos limitou
A apenas um olhar sereno
Que um dia brevemente nos fitou

Ele se levantou e deu um beijo
No meu rosto aquecido
Que se desfez em um solfejo

(Samira Assis)
 

 
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